“O que os Verdes têm para oferecer à Europa são valores claros”
Descubra como os Verdes crescem na Europa com valores claros contra a extrema-direita e pela inclusão.
Esta é a transcrição da entrevista ao podcast Poder Público.
Ruben Martins (Público) Ora viva. Nos seus ouvidos o Poder Público. Eu sou o Ruben Martins. Estou de volta depois de um período de ausência. Hoje temos um episódio mais curto em que falamos com o Filipe Henriques sobre o crescimento dos partidos Verdes em vários países da Europa. A entrevista já foi gravada há algumas semanas e, por isso, peço desculpa ao Filipe e a todos quantos ouvem o Poder Público. Obrigado por estar desse lado.
R.M. Vamos conhecer o convidado de hoje. Chama-se Filipe Henriques.
Filipe Henriques: Nasci em Lisboa, estudei Ciência Política no ISCTE, fiz Erasmus em Berlim e comecei a fazer o mestrado, de novo no ISCTE, o mestrado em Ciência Política e depois decidi obter um bocadinho de prática logo e juntei-me aos Verdes Europeus, primeiro com um estágio, depois gostaram do meu trabalho e ofereceram-me o cargo em que estou agora.
R.M. E o que é que estás a fazer agora?
F.H. Em português seria algo como conselheiro político e assistente de campanha. Basicamente, agora o que eu estou a fazer é preparar a campanha para as Europeias de 2019, principalmente fazendo a ligação entre o que nós fazemos no Partido Verde Europeu e o que está a acontecer nas diversas áreas da Europa. Portanto, eu, basicamente, todos os dias tenho de seguir tudo o que acontece de Lisboa a Helsínquia e de Dublin a Nicósia e tentar analisar tudo o que está a acontecer e fazer as ligações entre si, para que possamos ter uma mensagem verdadeiramente europeia para os problemas que estão a acontecer no continente inteiro.
R.M. Filipe, como é que justificas o crescimento exponencial dos Verdes nas sondagens a nível nacional e também nas eleições regionais da Baviera?
F.H. Bem, as eleições no último fim de semana na Baviera, mas também no Luxemburgo e na Bélgica, mostraram basicamente o que está a acontecer também noutros sítios, também nos Países Baixos e na Finlândia. Os Verdes têm crescido bastante nos últimos meses, no último ano. O que mostra, basicamente, três coisas. Uma que nós já tínhamos visto há algum tempo é que as pessoas estão a precisar de mudança. Depois de, em alguns casos, 40/50 anos de democracia, as pessoas ficaram um bocado fartas da política como estava a acontecer. Depois, o que os Verdes têm para oferecer - e que também a extrema-direita ofereceu há cerca de um/dois anos - é que temos valores claros. Neste caso, valores completamente opostos: os Verdes e a extrema-direita estão em lugares opostos em termos de valores, mas temos valores claros. E, em terceiro lugar, para os Verdes em específico, o que acontece é que temos uma mensagem que vai muito direto àquilo que as pessoas estão a sentir, principalmente nos grandes centros urbanos, que é onde vive a maior parte da população europeia. Temos mensagens bastante claras em termos de ambiente, mobilidade urbana, habitação, também na imigração, onde não fazemos esta divisão entre nós e os outros, e que as pessoas realmente estão a sentir que vai, de facto, ao encontro daquilo que são as suas preocupações.
R.M. Nos últimos tempos temos sido confrontados com o crescimento de mensagens anti-imigração. O crescimento dos Verdes nas sondagens mostra que há espaço para quem defende uma Europa aberta?
F.H. Exato. Mas eu acho que essa mudança é mais mediática do que real, porque o que aconteceu durante os últimos tempos é que havia esta minoria muito barulhenta anti-imigração, enquanto a população, na maior parte da Europa, não é anti-imigração. Por exemplo, em Portugal nós conhecemos a realidade da emigração, no sentido contrário, dos portugueses irem para o estrangeiro, e não existe este sentimento generalizado anti-imigração. E o que os Verdes fizeram foi quebrar esta lógica que havia nos partidos mais estabelecidos, em que a maneira de lutar contra o medo que a extrema-direita estava a provocar era, basicamente, copiar a mensagem deles e descer um tom ou dois. O que os Verdes mostraram é que, de facto, se pode fazer política com estes valores a favor de todas as pessoas. E, por exemplo, no Luxemburgo, onde os Verdes entraram no governo há 5 anos, lançaram - o Luxemburgo é um caso muito particular, porque mais de metade da população não tem direito de voto em eleições nacionais porque não tem a nacionalidade luxemburguesa, muitos portugueses também, a maior comunidade estrangeira no Luxemburgo - e os Verdes chegaram ao governo, lançaram um referendo para dar direito de voto a estas pessoas - não tivemos sucesso nisso - mas, por exemplo, agora, nas eleições do Luxemburgo, o deputado verde com mais votos preferenciais foi o Félix Braz, que é um luso-descendente e, portanto, os Verdes, em toda a Europa, não tiveram medo de lançar estas mensagens pró-imigração, de uma sociedade inclusiva e, de facto, agora estamos a conseguir mudar esta mensagem mediática que já se estava a formar.
R.M. Vamos a números e aqui olhamos para a Alemanha. A sondagem realizada entre 12 e 14 de novembro mostra a CDU de Merkel a ganhar as eleições com 26% dos votos, mas logo atrás estão os Verdes com 23%. São três os pontos percentuais de diferença. Nas últimas legislativas alemãs, os Verdes ficaram a 24 pontos percentuais da CDU de Merkel. Filipe, quais é que são as perspetivas para as próximas eleições europeias, já em maio do próximo ano? Os Verdes Europeus, na tua visão, vão ter mais eurodeputados?
F.H. Sim, de facto, estamos a prever um resultado histórico para os Verdes, o maior grupo parlamentar da história dos Verdes Europeus. Isto numa situação bastante complicada, porque com o Brexit - com a saída do Reino Unido - os Verdes vão perder seis eurodeputados, de uma das maiores delegações nacionais e, no entanto, com o crescimento que estamos a ter um pouco por toda a Europa, vamos conseguir substituir essa perda e ainda crescer mais. Os impactos deste crescimento dos Verdes vão ser bastante grandes em termos legislativos no Parlamento Europeu, mas também para influenciar o resultado das eleições europeias e o seu impacto na Comissão Europeia, porque desde 2014 que as eleições europeias têm essa ligação direta com o próximo presidente da Comissão Europeia e também aí um grupo parlamentar dos Verdes Europeus maior e mais potente poderá influenciar para que tenhamos uma Comissão Europeia também com melhores resultados.
R.M. E tens uma justificação para que em Portugal não haja um grande peso político para os partidos que têm uma mensagem mais ecologista, como o Partido Ecologista “Os Verdes” e o LIVRE, apesar de existirem muitos movimentos sociais ligados ao que os Verdes defendem a nível europeu?
F.H. É um facto, mas é uma coisa que não é só portuguesa. Portugal tem as suas particularidades. É um país onde as pessoas tendem a votar naquilo que já conhecem, há muita dificuldade em apresentar pessoas novas à política e vemos isso no Parlamento português, onde apenas o deputado único do PAN pertence a um partido que não estava presente no Parlamento desde o início da democracia, mas é algo que também acontece em Espanha e na Grécia. As origens dos partidos Verdes na Europa têm, basicamente, três origens: havia a luta contra o nuclear; houve, principalmente na Europa de Leste, a experiência pós-comunista; e os movimentos de paz da Guerra Fria. Em Portugal, nenhum destes três elementos foi muito potente, o que faz com que o ecologismo político em Portugal tenha de se adaptar a esta realidade. Mas, mesmo assim, temos tido alguns sucessos e, nos últimos quatro anos, com este novo governo mais plural, temos o PEV - que é o Partido Verde em Portugal - e outros partidos na área da ecologia política, como o PAN, que têm conseguido influenciar o governo a tomar medidas mais ecologistas. Não o suficientes, poderíamos ter muito melhor. Mas, tendo em conta esta adaptação em Portugal, em Espanha e também na Grécia a esta realidade local, temos conseguido, mesmo assim, bastantes sucessos.
R.M. Os Verdes Europeus são representados na Assembleia da República, em Portugal, por dois deputados do Partido Ecologista “Os Verdes”. O PEV nunca concorreu sozinho às eleições, fazendo-o atualmente em coligação com o Partido Comunista Português na CDU - Coligação Democrática Unitária. Este foi mais um Poder Público. Fico à espera do seu feedback para ruben.martins@publico.pt. Poder Público, histórias da política, da sociedade e do mundo. Aquele abraço.


